sábado, 18 de maio de 2013

Gustavo tinha uma pergunta

      Cafelândia é uma cidade pequena no interior do Paraná. Quando digo pequena, provavelmente não estou fazendo justiça ao tamanho dessa pequenez. Principalmente na época em que ocorreu a história que lhes vou narrar, quando a cidade devia contar, no máximo, com cerca de uns oito mil habitantes.
   
      Mas por causa mesmo dessa pequenez é que Cafelândia é e era, naquela ocasião, uma cidade agradável: era fundamentalmente residencial, possuía alamedas arborizadas e casas simples, mas elegantes, muitas com varanda, jardins floridos e cerca baixa, pois o receio quanto a malfeitores não era, ali, uma preocupação real. Havia a praça da catedral - que os moradores costumavam chamar de Matriz - um posto de saúde, uma farmácia, uma padaria e o restante do pequeno comércio local, que se resumia a umas poucas lojas e duas ou três agências bancárias. Os habitantes que tinham idade suficiente para trabalhar eram quase todos empregados da cooperativa agrícola da região. Ah... Não posso me esquecer, é claro, de que em Cafelândia existia a loja de ferragens do senhor Augusto!

      As manhãs de domingo, na primavera, eram especiais: sempre frescas, embora ensolaradas, encontravam os jardins floridos das simpáticas residências, exibindo tons alegres e suavemente perfumados. Esse aroma primaveril atraía um considerável número de borboletas, que emprestavam ao cenário um colorido extra, móvel e cintilante. Às dez horas da manhã, as badaladas pontuais do sino da Matriz vinham avisar os cidadãos de que a missa matinal se iniciava. As missas estavam entre os escassos e prestigiados eventos sociais da cidade e a missa da Matriz era, entre as poucas outras existentes, a de maior destaque. Raro era o comerciante ou o dono de pequeno negócio que não fosse visto com a família, aos domingos, a entrar elegante na Igreja da Matriz: o senhor Augusto era um desses. Digo, não era visto nas missas!

      Foi numa manhã de domingo primaveril, estando o senhor Augusto na varanda de uma típica residência cafelandense, sentado em sua cadeira preferida, pés apoiados sobre uma pequena mesa de apoio onde se esparramavam algumas revistas em língua inglesa, que, enquanto lia as notícias da véspera no jornal, alguns poucos segundos após soar a última badalada da Matriz, seu filho de quatro anos, deixou de lado por um instante a brincadeira de carrinhos e lhe perguntou:

      - Pai, Deus existe?

      O senhor Augusto era um comerciante, um homem prático, mas também, um homem informado. Era, acima de tudo, um aficcionado por ciência. Se não fosse dono de uma loja de ferragens e não estivesse nesse ramo havia tanto tempo, bem poderia se tornar astrônomo ou físico - assim pensava! Prova disso era ser ele o orgulhoso detentor da única assinatura mensal da revista científica que chegava a Cafelândia. Aliás, revista em língua inglesa, idioma não dominado com perfeição pelo ferreiro, mas entendido com a exata suficiência para debater entusiasticamente com seus interlocutores atônitos as últimas descobertas do primeiro mundo enquanto lhes exibia os textos em idioma estrangeiro ao lado de fantásticas imagens que, estas sim, os impressionavam. Eram essas as revistas que atapetavam sua mesinha de apoio quando o menino Gustavo interrompeu sua leitura matutina.

      Gustavo era um menino diferente. O Senhor Augusto certamente reconhecia terem os pais uma tendência natural a supervalorizar as qualidades de seus pequenos rebentos, mas, mesmo assim, não conseguia atinar que o garoto fosse um menino perfeitamente... digamos assim... normal.

      O menino falara as primeiras palavras com oito meses de idade. Isso já fora estranho! Mas depois, mais de uma vez ele flagrara o menino em atitude suspeita. Desde pequeno acostumara-se a vê-lo manusear jornais e revistas, não virando e rasgando as páginas intempestivamente, como uma criança deveria fazer, mas numa postura análoga à de um adulto compenetrado que estivesse de fato lendo e compreendendo o conteúdo!

      Dezenas de vezes percebera o garoto, à noite, olhando contemplativamente para o céu estrelado como se estivesse vendo alguma coisa não mais vista por ninguém.

      Mas o fato mais estranho de todos acontecera havia uns dois meses quando o rádio a pilha havia se quebrado. Tia Adelaide, havendo passado a tarde com o garoto, afirma ter o menino consertado sozinho o aparelho! Apesar da tia ser uma senhora já um tanto esclerosada e dada a um cochilo quando o calor gostoso da tarde era acompanhado da sombra amena na varanda, ela jurava de pés juntos não haver dormida naquela tarde! E, de mais a mais, o rádio, agora, estava funcionando! Quem quisesse acreditar na história, acreditasse!

      E, para finalizar, ultimamente o menino vinha fazendo perguntas esquisitas, e cedo demais para sua idade. Outro dia, Dona Efigênia, uma senhora respeitável da vizinhança, veio lhes fazer uma visita. O pai chegou à casa vindo da loja de ferragens a tempo de ouvir o que pensou ser algum questionamento onde o menino relacionava o nome "Isaac Newton" aos seios volumosos da convidada. O Senhor Augusto tratou de interromper a conversa rapidamente, mas esse tipo de comportamento do menino vinha se repetindo e, cada vez mais, incomodando o zeloso pai.

      Fosse como fosse, seu Augusto sentia nunca ter a maneira correta de responder às questões do filho. Ora pensava responder de menos, ora achava responder demais. Dessa vez, tentou uma resposta evasiva:

      - Para algumas pessoas, ele existe, filho. Para outras, não!

      O menino ficou um instante calado, olhando para as borboletas no jardim. Parecia pronto para retornar à sua brincadeira de carrinhos, mas estacou, como se assumisse que o pai era a sua autoridade de referência:

      - E para nós, pai, ele existe ou não?

      O pai, físico e astrônomo amador, ferreiro, comerciante e prático, armou-se de toda a simpatia que pôde reunir para responder àquela inquirição inquietante, sem abalar alguma possível convicção do menino:

      - Não, filho, para nós Deus não existe!

      - Por quê? - Perguntou o garoto, sem demonstrar muito interesse!

      - Porque nós acreditamos na ciência - disse o pai em tom explicativo - e a ciência nos prova que Deus não existe.

      - Ah... Mas meu amigo me disse que foi Deus quem criou o homem... à sua imagem e semelhança!

      - Não, meu filho, seu amigo está enganado! Creio que ele não estuda ciência, estou certo? Aliás, mais provavelmente, foi o homem quem criou Deus à sua imagem e semelhança e não o contrário. Olha, Gustavo, tem muitas coisas que o homem desconhece, sabe? Aí ele inventa algo para preencher esse vazio de conhecimento. Era assim com os povos primitivos: eles não entendiam o sol, aí achavam que o sol era Deus. Não entendiam a lua, então a lua era Deus. Depois veio a ciência e mostrou que não era assim! A ciência mostrou que o sol e a lua são apenas astros orbitando pelo universo. Quando o homem não compreende alguma coisa, logo inventa uma forma misteriosa de explicá-la e a forma mais utilizada para isso é a forma de alguma divindade... Entendeu?

      - Ah... Sim! Mas se não existe Deus, quem criou tudo isso que está aí? - o menino titubeou por um momento, como se procurasse alguma coisa mais específica para perguntar, e depois completou: - Quem criou as borboletas?

      O senhor Augusto ficou animado! O menino estaria mesmo entendendo? Um garoto de quatro anos de idade poderia lhe dar ensejo para uma prazerosa conversação científica? Apesar da estranheza da situação, seu entusiasmo o impeliu a continuar:

      - Ninguém criou as borboletas, meu filho! Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, assim dizia Lavoisier. As borboletas são fruto da transformação das lagartas. É como uma criança ao se transformar em adulto. Simples assim.

      - Mas então, e a lagarta? De onde veio a lagarta?

      - Ora, ela veio de um ovo, que é o filhotinho da lagarta!

      - E a lagarta é o adulto?

      - Sim!

      - Mas a lagarta não era a criança, e a borboleta o adulto?

      Seu Augusto hesitou... Depois replicou:

      - Não, meu filho, não é bem assim! Aquilo foi um exemplo. A criança, nesse caso, seria a larvinha da lagarta; a lagarta seria mais ou menos como um adolescente e a borboleta, o adulto. Fica melhor explicado assim. É que o ser humano não passa por exatamente por esse tipo de transformação.

      O menino se sentiu um pouco acuado com a resposta do pai:

      - O senhor não tinha explicado direito...

      - Desculpa, Gustavo. Vou tentar ser mais claro. Quer perguntar mais alguma coisa?

      Com certo receio, o garoto arriscou:

      - Se Deus não criou o homem, de onde ele veio?

      - É uma longa história, filho! Para simplificar, pode-se dizer que somos descendentes dos macacos!

      - Como assim?

      A partir deste ponto, vou poupar o leitor à fastidiosa sucessão de perguntas e respostas, que foi retroagindo no tempo, passando por Darwin, o evolucionismo e as mutações ao acaso, com direito a uma parada pelas ilhas Galápagos, pela extinção dos dinossauros e navegando pelas águas insalubres da Terra primitiva e a teoria da abiogênese. A conversa passou pelas características dos átomos (muito mais vazios do que cheios, para absoluta surpresa de Gustavo) e ultrapassou os limites da Terra, por entre buracos negros e supernovas chegando, finalmente à formação das Galáxias e o Big-Bang...

      - Pai, quer dizer que tudo, tudo mesmo no Universo existia antes numa bolinha pequeniníssima, menor que uma cabeça de alfinete que então explodiu e - BUM! - o universo começou a crescer e até hoje continua crescendo?

      - É! Isso mesmo! - Seu Augusto sentia-se orgulhoso! O menino era um pequeno gênio! - Viu como não é difícil entender? E não precisamos inventar um Deus superpoderoso para explicar todas essas coisas!

      - É mesmo! Mas pai, eu tenho mais duas perguntas...

      - Fala filho! - o Senhor Augusto estava ansioso para responder!

      - Primeira: se essa bolinha que continha tudo que existe no universo estava lá quietinha, por que um dia ela resolveu explodir? E, segunda: se, no universo nada se cria, de onde veio a bolinha?

      ...

      Seu Augusto calou-se por uns instantes... Pareceu, ao menino, estar absolutamente concentrado. Franziu muito a testa. Sua expressão foi se tornando cada vez mais árida... Um completo silêncio invadiu aqueles minutos. E uma total ausência de movimento. Parou o vento. As folhas das árvores não se mexeram. As borboletas pareceram interromper o vôo em pleno ar!

      Até que, num súbito retorno ao mundo dos vivos, o Senhor Augusto abriu um amplo sorriso e retomou o assunto, como se assunto nenhum houvesse para ser retomado, mas assumindo o comando da situação, ou seja, assenhorando-se do direito da pergunta e ignorando completamente a última fala do menino:

      - Meu filho, hoje quando você me perguntou se Deus existe, foi porque escutou as badaladas da Matriz e se sentiu ressentido porque a maioria dos seus amiguinhos vai à Igreja e você não vai, não é isso?

      - Não senhor!

      Como não? - pensou o Senhor Augusto um tanto confuso... - Não está ressentido, é isso?

      - Não! Não foi por causa das badaladas que eu fiz a pergunta!

      - Então foi por quê?

      - Por causa da frase!

      - Que frase, menino? De que frase você está falando?

      - Dessa, na sua revista, na sua frente!

      Havia vários exemplares da revista científica - orgulho do Senhor Augusto - espalhados pela mesinha onde ele apoiava os pés. No meio da confusão, não conseguia identificar uma frase que fizesse sentido. Além de tudo as revistas eram em Inglês! Do que o menino estaria falando, afinal!

      - Anda menino! - Disse ele irritado! - Não estou vendo frase nenhuma. Pega a revista de que você está falando e me mostra.

      O menino, amuado devido ao jeito irritado do pai, levantou-se, timidamente pegou uma revista e entregou-a ao senhor Augusto, dizendo, em voz baixa:

      - É essa do homem de bigodes, de língua pra fora!

      O senhor Augusto leu, na capa da revista, sobre a célebre fotografia de Albert Einstein, a frase:

      "God doesn't play dice with the universe!"

      Uma sensação de mal estar tomou-lhe o corpo. Uma espécie de "náusea cerebral"... Não saberia dizer exatamente o que era. Hesitou brevemente e, então, tentou dizer alguma coisa:

      - Olha filho,,,

      O menino interrompeu:

      - Tudo bem pai, esse homem da capa não deve ser muito inteligente, mesmo. No mínimo ele não sabe que as mutações ocorrem por acaso! - E, para absoluta surpresa do senhor Augusto, o menino voltou a brincar com seus carrinhos, como se aquela conversa nunca houvesse acontecido!

      Gilberto de Almeida
      18/05/2013


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